
ADOLESCÊNCIA DISTENDIDA.
Uma coisa notória de se observar é como as crianças de hoje ao mesmo tempo tão espertas, e em alguns casos tão dependentes. Bem, criança não, adolescente né, criança é ofensa.
A criança é uma invenção da modernidade. Até meados do século XIX chama-se a pessoa de pouca idade de “adulto pequeno”. O homem nascia, era criado e minimante educado, e assim que desenvolvia forças e discernimento ia ao trabalho. A idade para se começar trabalhar começou a baixar no século XX. Nossos pais e avós costumam nos contar que já aos sete anos saiam atrás do seu dinheiro. Engraxate, trabalho na roça carpindo café, ajudante de pedreiro, o popular “orelha seca”, vendedor de mamona e cobre. As pessoas da minha geração já começaram um pouco mais tarde. Aos 14 anos muita gente já tinha registro em carteira. A maturidade chegava cedo e a adolescência era mera designação de crianças de oitava série. Casava-se cedo, a emancipação dos pais era aos vinte anos. Um homem aos 23 já era pai de família, com filho e residência. Hoje isso é cada vez mais raros. Marmanjos se alojam nas residências dos pais até trinta, quarenta, e há exemplos de cinqüenta anos. Os pesquisadores constatam como algo curioso esse fenômeno. “A adolescência se estende hoje até os trinta”. Este dado assustador é propagado por pedagogos, empresas de marketing. Todos acham até divertido essa constatação. “Que legal né, permanecemos jovens por mais tempo.”
Entretanto o que não ocorre é a percepção de algo maior por trás disso, este sintoma da manipulação social pelo mercado, pelas políticas trabalhistas, pela mídia de massa, como diria Lyotard. Noutras épocas trabalhava-se cedo porque havia demanda, havia campo para se ganhar um dinheiro, e havia a necessidade nos lares. Os pais de família eram homens com anos de trabalho, e cujo salário médio era alto, decente, para se sustentar toda uma família. Quando do golpe militar de 1964 o salário mínimo era o equivalente a algo em torno de R$ 800,00. Hoje o mínimo é sem dúvida alguma um salário de adolescente.
Manter as pessoas presas em suas colônias familiares é extremante interessante, tanto para o mercado quanto para os governos. Famílias geram problemas sociais quando não inseridas no sistema. Residências clandestinas, sem saneamento, crianças sem assistência, pessoas infelizes que permeiam a comédia da tragédia urbana. Como na Idade Média, para se sobreviver à crise, as pessoas vivem juntas, famílias inteiras, lutando contra a pobreza endêmica. O individualismo custa caro e em países pobres, cuja população é levada a pensar que é Norte Americana, como o Brasil, é muito mais interessante que os homens e mulheres tenham suas liberdades e responsabilidades reduzidas, para consumirem muitos bens perecíveis, com seus baixos salários, e aproveitarem as estruturas familiares criadas pelos seus pais na época em que um homem era remunerado como tal.
Adolescentes de trinta anos não são um fenômeno curioso e natural, como pensam alguns teóricos imbecilizados por teorias neo-liberais. São produtos necessários à manutenção de um sistema de espoliação econômica, e aquecimento do mercado de bugigangas. Não é interessante pais de família que comprem arroz, paguem aluguel, luz, água, e que comprem um grande carro para levar a família à missa. Estas novas invenções, a da mulher independente (não no sentido do seu direito como ser humano, mas no de ser tapiada e achar lindo ter que trabalhar para completar a renda de seu marido, e ainda trabalhar em casa) do sexo livre, do play boy, do adolescente senil, elevam as vendas. Esse público compra carros mil, celulares, preservativos, bebidas, roupas, enquanto que coisas que dão pouco lucro como as necessárias á formação de uma família ficam para um trágico destino inevitável, mas que agora esta cada vez mais adiado para os quarenta, cinqüenta, ou quem sabe nunca: o casamento.
Não optamos por isso, não precisamos disso. Nossos pais e avós se divertem também, resgatam sua infância, bem mais saudável que a nossa diga-se de passagem. Fomos conduzidos a uma realidade artificial, a uma vida pós-moderna que reduz homens e mulheres á adolescentes, livres para serem inconseqüentes, enquanto nossos pais batem recordes de longevidade, mantido a custo de remédios caros, aposentadorias medíocres, e uma qualidade de vida lastimável.